18.12.06

m.o.r.t.e a.r.t.e.f.a.t.o

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Sapatos definitivos,
goma branda na face.
Rumo a lugar algum,
mortes vividas sonho.

Visto festa solene,
Cheiro à cipreste,
Lacrimejo parafina,
Alguidar é meu corpo vazio.

Janela sem paisagem,
Réquiem à minha memória,
Réplicas carpideiras,
Perpétuas florescem nos pés.

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eu tomo aqui palavras trocadas, emprestadas, ou seria parceria. Sensível habilidade, ao Francis eu agradeço.

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e abriu

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sim, foi abril, em 2006

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Photo de Thomas Kaufmann
Puppet Mauro Rodrigues
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plus + plus

Vanity!

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Vezes sem fim, calar não é fácil. Dizer nada muda, já o sei. Toda poeira de verbos recobre precipícios, veredas ou mesmo veleidades. Não há modo diverso deste, mais detestável, feito canhestro de tantas palavras, mesmo em mim, almeja silêncios.

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05/ de dezembro, temp(l)o de silêncios:
Cálice de letra por vir.
Palavra tanta, toda e outra a mais.
Estado sutil, sensação num quase verbo.
Na forma falha tamanha,
Brecha sem fim
Que foi assim que daqui sumi.

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(às flôres intermitentes de maio)
curva (inter)rompida
devolve móveis
esquece baús
troca chaves
fecha portas
guarda lacres
bebe vergonhas
enfrenta quedas

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( seria já um junho ido, findo)
Na infância havia a chuva, bijú de lata, catraca e matraca a romper silêncios nas tardes e noites sem fim.
Na infância havia, mesmo com dor de dente, doce de coração, suspiros amarelos, rosas e azuis brocados com gotas de prata e luar a não perder mais.
Na infância havia, mesmo à noite, pé na lata, mãe da rua e esconde-esconde nos terrenos baldios dos troca-trocas e segredos e risos em noites descobertas.
Na infância, mesmo que fizesse frio, havia toalha com água umedecida para banho morno com alfazema.
Na infância havia inverno, goteiras nas latas, franjas da casa com orquestra de tatibitati de tantos chuviscos.
Na infância havia cigarra, apesar de todo adulto, nas árvores de todo verão
Na infância havia o que mais haveria.

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17.12.06

Tina apenas para íntimos





Tina em certos olhares
Tina em certos lugares
o indomável animal

13.12.06

A complicada arte de ver

"O OBSERVADOR"
argila 55x15x15cm
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Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões — é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode àCebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos eos rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda asua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do"terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa — garrafa, prato, facão — era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas — e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".
Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...

Rubem Alves
O texto acima foi extraído do caderno "Sinapse", jornal "Folha de S.Paulo",versão on line, publicado em 26/10/2004.


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