24.12.06

Decifro-me: eu devoto


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Horas
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Tantas vezes sonhei-me imagem.
Em outras, pensei-me metáfora.
Tantas, signo de algum além.
Mas foi um desaforado e divino,
desses que perambulam aqui,
que fez cair a primazia
dos dias de transcendência.
-
Faz calor e chove.
Haja ou não nuvens,
eis que haverá sempre
trinta e tantos dias.
-
Qual Jorge sobre o cavalo
e lança em punho,
desfiro golpes da sorte
ao ritmo de distrativas horas.
Se elas se esvaem
eu nada sei ou sinto.
As horas são,
não se formam,
mas me constituem.
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*
-
Ao amigo de horas distraídas, que prenunciam segredos cifrados, meu carinho nas palavras do Gullar.
-
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Traduzir-se

Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é questão
de vida ou morte _
será arte?

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18.12.06

m.o.r.t.e a.r.t.e.f.a.t.o

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Sapatos definitivos,
goma branda na face.
Rumo a lugar algum,
mortes vividas sonho.

Visto festa solene,
Cheiro à cipreste,
Lacrimejo parafina,
Alguidar é meu corpo vazio.

Janela sem paisagem,
Réquiem à minha memória,
Réplicas carpideiras,
Perpétuas florescem nos pés.

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eu tomo aqui palavras trocadas, emprestadas, ou seria parceria. Sensível habilidade, ao Francis eu agradeço.

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e abriu

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sim, foi abril, em 2006

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Photo de Thomas Kaufmann
Puppet Mauro Rodrigues
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plus + plus

Vanity!

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Vezes sem fim, calar não é fácil. Dizer nada muda, já o sei. Toda poeira de verbos recobre precipícios, veredas ou mesmo veleidades. Não há modo diverso deste, mais detestável, feito canhestro de tantas palavras, mesmo em mim, almeja silêncios.

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05/ de dezembro, temp(l)o de silêncios:
Cálice de letra por vir.
Palavra tanta, toda e outra a mais.
Estado sutil, sensação num quase verbo.
Na forma falha tamanha,
Brecha sem fim
Que foi assim que daqui sumi.

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(às flôres intermitentes de maio)
curva (inter)rompida
devolve móveis
esquece baús
troca chaves
fecha portas
guarda lacres
bebe vergonhas
enfrenta quedas

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( seria já um junho ido, findo)
Na infância havia a chuva, bijú de lata, catraca e matraca a romper silêncios nas tardes e noites sem fim.
Na infância havia, mesmo com dor de dente, doce de coração, suspiros amarelos, rosas e azuis brocados com gotas de prata e luar a não perder mais.
Na infância havia, mesmo à noite, pé na lata, mãe da rua e esconde-esconde nos terrenos baldios dos troca-trocas e segredos e risos em noites descobertas.
Na infância, mesmo que fizesse frio, havia toalha com água umedecida para banho morno com alfazema.
Na infância havia inverno, goteiras nas latas, franjas da casa com orquestra de tatibitati de tantos chuviscos.
Na infância havia cigarra, apesar de todo adulto, nas árvores de todo verão
Na infância havia o que mais haveria.

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