25.9.07
23.8.07
"A fúria da beleza" Elisa Lucinda
a beleza dessa maria-sem-vergonha rosa
soca meu peito esta manhã!
Estupendamente funda,
a beleza, quando é linda demais,
dá uma imagem feita só de sensações,
de modo que, apesar de não se ter consciência desse todo,
naquele instante não nos falta nada.
É um pá. Um tapa. Um gole.
Um bote nos paralisa, organiza,
dispersa, conecta e completa!
Estonteantemente linda
a beleza doeu profundo no peito essa manhã.
Doeu tanto que eu dei de chorar,
por causa e uma flor comum e misteriosa do caminho.
Uma delicada flor ordinária,
brotada da trivialidade do mato,
nascida do varejo da natureza,
me deu espanto!
Me tirou a roupa, o rumo, o prumo
e me pôs a mesa...
é a porrada da beleza!
Eu dei de chorar de uma alegria funda,
quase tristeza.
Acontece às vezes e não avisa.
A coisa estarrece e abre-se um portal.
É uma dobradura do real, uma dimensão dele,
uma mágica à queima-roupa sem truque nenhum.
Porque é real.
Doeu a flor em mim tanto e com tanta força
que eu dei de soluçar!
O esplendor do que eu vi era pancada,
era baque e era bonito demais!
penso, às vezes, que vivo para esse momento
indefinível, sagrado, material, cósmico,
quase molecular.
Posto que é mistério,
descrevê-lo exato perambula ermo
dentro da palavra impronunciável.
Sei que é desta flechada de luz
que nasce o acontecimento poético.
Poesia é quando a iluminação zureta,
bela e furiosa desse espanto
se transforma em palavra!
A florzinha distraída
existindo singela na rua paralelepípeda esta manhã,
doeu profundo como se passasse do ponto.
Como aquele ponto do gozo,
como aquele ápice do prazer
que a gente pensa que vai até morrer!
Como aquele máximo indivisível,
que, de tão bom, é bom de doer,
aquele momento em que a gente pede pára
querendo que e não podendo mais querer,
porque mais do que aquilo
não se agüenta mais,
sabe como é?
Violenta, às vezes, de tão bela, a beleza é!
22.8.07
Gérberas
*
Flores de palavras
Umas poucas e boas palavras saíram em toada. Estão elas ligadas ao azul e verde no corpo cristal do vaso, à madeira da cadeira, da mesa, da cama, na sala, no quarto. Os lençóis e outras fibras estremecem com a vibração delas. Elas impregnaram a sua presença na sala, no quarto, na biblioteca. E aos viventes daqui, pouco a pouco, fazem no ritmo delas também nós dançarmos. Todo o espaço e tempo e os viventes as tais palavras reverberam sem distração, prenunciam festa, retratos, passeios, o sol das manhãs de domingo. Recontam elas, àvidas, da sua primeira e rápida visita à casa, à mesa, à cama, ao abraço. Prenunciam a sua nova chegada. Elas, as palavras, umas poucas, mas boas, em sussurros furtivos, estão agora mesmo em toadas a contar: apaixonadas!
*
Dia e outro,
Amado,
Desfia o tempo.
Distância,
Lembre,
Amor,
Esqueça!
Dia e noite,
Amado,
Desafia o tempo.
Meus delírios,
Sensíveis desatinos,
Aos abraços,
Amado,
Amorteça!
Dia e noite,
Amor,
Fia o tempo.
Miolo negro,
Pétala a pétala,
Floresce gérbera.
Coroa o laranja
O nosso amar-elo.
29.5.07
Tecer Teias
Fibrila o desejo do leitor: asa
Ariadnes em marchas sincopadas, arranjam hordas de letras alinhadas entre margens de sentidos. Invisíveis, visíveis, coagulam as palavras em similaridades e contigüidadesas mais estranhas às letras que se tornam palavras. E avançam, texto e leitor, entre finos rabiscos e abismos de sentidos. As margens invisíveis ordenam traço, letra, espaço... E rumo ao sem fim de léxico, sema, signos, metáforas e topoi. Alfarrábios de civilização, rolos e maços em estantes fechadas, portas para um mundo que existe sob as patas das aranhas gráficas. Surpresas em textos, aventuras em linhas, mistérios em garatujas. São amorosas as aranhas gráficas. Há tanta vida entre as teias delas. E não haverá trégua, acomoda-se o adiantado leitor. Ler!
Arma-se a linguagem: asa de mosca
Pela testa do leitor escorre lenta uma gota e outra de suor. As aranhas correm rápidas e dispersam-se. Correm retas novas linhas, desarranjados caminhos. As marcas e as patas delas esbarram sem sentido nos limites da página. Manchas escorrem grossas, borram-se as letras margem abaixo. Um assopro, um suspiro e mais outro. Sem socorro, as letras estão borradas. Sem palavras! Uma ilha negra brota no centro dos alinhamentos. Manchas e borrões em ilhas de desordem entranhadas nas fibras da seda opaca. Uma e outra gota de suor bastou, fez-se noite entre as letras. Garatujas ébrias e a civilização do texto posta em grossas nuvens de borrões. O movimento de pensar o mundo em letras, não mais se lê, nem palavras, agora é trilha de incertezas. Em meio ao cansaço e o suor desta noite perde-se todo sentido. Sem os fios das letras e sentidos, a memória de Aridne está presa num labirinto sem muros.
O devaneio opaco: asa de mosca na filigrana
Gotas cedem ao calor da lâmpada que pende sobre o papel e o aquece. Acolhidas nas rugas desabrochadas na trama porosa, por hora, marcadas de rastros, de certo as gotas secam. Vapor. Borrão algum deixa de ceder à luminosidade. A luz seduz!
As letras não se cansam de estar no mundo para revelá-lo? Quem saberá? As letras são ilhas de solidão. Ler e ser o mundo dito, narrado ou descrito, restritivo este espaço da página que o aprisiona entre capas. A leitura macula o tempo da língua viva, desbasta as coisas em letras, faz do mundo palavra e espírito. Que se leia o livro! O leitor abandona o vão esforço de jogar qualquer luz-compreensão e dissolver as manchas do texto borrado.
A vertigem dos olhos: asa de mosca na filigrana de teias
Na face borrada, sumidouro das letras, há estranhas linhas sem margem precisa. Manchas de cor acinzentada e negra cedem ao translúcido que surge sob o calor da luz. Abruptas ilhas de marcas d’água desenham-se no papel em vergões e cicatrizes do movimento do suor escorrido. Entrementes o tempo passe num átimo, sob o calor da luz germinam uns finos veios de cristais na página suada. Iridescentes brotam aos olhos as fadigas do pensar induzido pelas palavras. São uns cristais bem toscos, ínfimos nas ilhas de suor ressecado. Umas luzes falhas, umas faltas a ressecar as malha e lascas e gomas deste papel. Sempre haverá o que ler e ver. Retorna o leitor à bancada. Tentativa renovada de sentidos para estes cartões de manchas: singular livro, testes de Rorschach.
A vertigem dos olhos: asa de mosca na filigrana de teias furta-cor
A seguir, adiante! Estranhas figuras parecem dar nova mira ao leitor. São marcas de olhos enegrecidos em sombras a margear e centralizar uns focos nas ilhas. Reluzente imaginação a deste leitor. Olhos fatigados da imprecisa brancura da seda opaca e das letras. Adivinham-se as miríades de formas translúcidas. É possível ler tudo e todos. Um recurso último haverá compreensão. Uns cem números de pequenas luzes aparecem. Rastros da cristalina imaginação. E rebrilham também estas luzes numas falas, numas tentativas. Quantas luzes faz o pensar alheio, não é!? Mostra-se o papel: um mar de insuspeitadas e esboroadas letras. Possibilidade, gravidez de formas cinza e uns poucos cristais.
Asa de mosca na filigrana das teias furta-cor
Quisera eu, neste instante, uma outra idéia pudesse vir em meu socorro. Além de escrever ou de ler, tiraria este leitor da faina de compreender. Gostaria de apenas dizer-lhe para ver. Faria, quiçá, brotar mais que a mera descrição dos laços e riscos disformes dos diamantes lapidados pelo seu suor de cansaços.
Ah, amigo leitor, onde era opalino, se eu pudesse, faria nascer pra você um poema, um verso, um quadro de imagens.
Não viesse eu destro apenas nas limas, tesouras, agulhas, um modesto perseguidor de rastros das aranhas alheias... E mais disciplinado eu fosse, quiçá mais amigo, quem sabe, diria a você de viva voz umas rimas a sovar esta experiência incrível que é ler e dizer.
Umas falas, uns diálogos presentes no mundo, algo para além das páginas. Não fosse isto, tal imagem nascente daquela ilha, das formas luminosas dela, do suor... Eu então tentaria novamente escorregar patas de aranha da garganta em formas afeitas mais à alheia imaginação... Quiçá! Quiçá!... Quem dera quimeras!
Tivesse eu um poema à mão, na memória, então faria disto aqui mais que um ponto de vista. Traria as armadilhas da língua em verbos postos no ar. Seriam saraivadas de estímulos para novas danças de patas tintadas a rebrilhar no espaço de um círculo de amigos. E então recontaríamos nossas histórias. Faríamos nossas fábulas.
Quem sabe, saltaríamos prosas, poemas ou ainda alguns verbos cantados. Realinharíamos as trilhas das fastidiosas aranhas em patas mais bem tintadas apenas para registrar estradas, mapas dos nossos encontros. Grafaríamos umas tantas tramas de desatinos, histórias para ver de novo os amigos, na funda das filigranas de teias, junto à carne, ossos e sangue das palavras-letras de novos e melhores leitores.
28.5.07
INTERVALO

Que raras deusas têm escutado
-Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?
...Quem te disse tão cedo?
Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?
Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?
Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?
Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca
-A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.
23.4.07
As Marionetes e o início do Teatro Imago
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Fusion Square Garden *
Feitura das Criaturas
foto de Thomas Kaufmann
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22.4.07
15.3.07
PRE-ESTREIA
.T.E.A.T.R.O .............. I.M.A.G.O *
*
A P R E S E N T A
*** E N S A I O**** V I S ****M O T R I X ***
t e a t r o **d e** a n i m a ç ã o
E N S A I O V I S M O T R I X é o estado de ânimo ou fôlego, a força motora num ensaio sobre a alma das Marionetes. É um estudo teatral sobre a respiração e a gestualidade dos bonecos que ganham vida nas mãos dos atores.
A cena é baseada na antiga tradição das marionetes japonesas, nas técnicas de animação do teatro Bunraku. Atores e bonecos à vista do público reconstroem o mistério da vida no teatro.

d i r E ç ã o
Mauro Rodrigues
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A t o r e s - A n i m A d o r e s
Bruna Villa
Daiane Baumgartner
Daniela Pagnoncelli
Fabíola Gonçales
Marcos Nagata
Robson Barbosa
Roger Valença
*
estudos de poÉtica do teatro
Alento
Fôlego
Vis MotriX = Força Motora
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UM
ENSAIO
rua Mato Grosso nº 537
londrina - pr
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O Teatro Imago - teatro de animação - e este seu E N S A I O V I S M O T R I X, montagem de estréia do grupo no palco, são resultantes parciais da primeira etapa do projeto de pesquisa em ensino, intitulado Estudos de Poética e Pedagogia do Teatro. Ambos são coordenados pelo Prof.Dr. Mauro R Rodrigues, no Departamento de Música e Teatro do Centro de Educação, Comunicação e Artes, CECA - da Universidade Estadual de Londrina. Contam com a participação de treze estudantes da Graduação em artes cênicas: interpretação teatral, dos quais sete estão em cena e os demais colaboraram na produção desta montagem e em outras etapas da pesquisa.
Nos próximos meses "Ensaio Vis Motrix" será apresentado em curta temporada em teatros de Londrina e região, percorrendo trilhas inusitadas na busca de espectadores iniciantes que estão em espaços onde o Teatro de Animação nunca esteve.
Produção:
Teatro Imago
teatro de animação
Realização:
LATEA - Laboratório de Teatro de Animação - UEL
MUT - Departamento de Música e Teatro – CECA - UEL
Apoio:
Casa de Cultura - UEL
Sala 656
DEPARTAMENTO DE MÚSICA E TEATRO
Teatro Imago
em
E n s a i o V i s M o t r i X
Teatro de Animação
Realização
Fecomércio / SESC Londrina; Universidade Estadual de Londrina - Divisão de Artes Cênicas – Casa de Cultura e Departamento de Música e Teatro.
(43) 3324-8694 e/ou Divisão de Artes Cênicas – Casa de Cultura – Adriane Gomes
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Caros amigos,
Como vocês sabem, o Dia Mundial da Marionete é comemorado no próximo 21 de Março. Convidamos você a ler a Mensagem Especialmente escrita para este acontecimento por Sennosuke Takeda, eminente membro da Arte da Marionete no Japão.
Sabemos que vocês estão bastante ocupados com o seu trabalho e as suas atividades, mas seremos gratos pela difusão desta mensagem para todos os seus amigos para que conheçam o papel que a marionete desempenha no mundo todo em nossos dias.
Desejamos a vocês um feliz Dia Mundial da Marionete e que, dia após dia, o Mundo da Marionete seja conhecido e reconhecido pelos demais ramos da cultura internacional assim como os trabalhos nos quais vocês ativamente colaboram.
Sinceras saudações
Miguel Arreche
Secretário Geral da Unima
Union Internationale de la Marionnette
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UNION INTERNATIONALE DE LA MARIONNETTE–UNIMA
21 de março 2007
Dia Mundial da Marionete
A nostalgia e o novo
Sennosuke Takeda
(tradução Mauro Rodrigues)
Nascido na cidade Iida em 1939, trabalhou intensivamente para o desenvolvimento da arte do boneco no cinema, teatro e televisão. Sócio do Comitê Executivo da UNIMA, é presidente de honra do UNIMA- Japão e diretor do Takeda Memorial International Marionnette Museum.
Gosto de pensar que a cidade de Iida, transmitindo suas tradições às gerações sucessivas e as transportou até a modernidade, alcançou notoriedade mundial. As novas formas teatrais, provenientes principalmente da Europa e da América, conquistaram o Japão, e alimentaram durante por tantos anos a cultura sem igual desta ilha-nação, transformada em uma pequena caixa que navega no meio de uma enorme tempestade e isso às vezes a faz desaparecer.
Neste tempo, uma grande família com dons excepcionais para o teatro de bonecos, percorreu todos os países oferecendo suas apresentações, floresceu e desenvolveu-se na ilha de Awaji. Os moradores locais lhes forneciam um lugar para viver e em troca eles lhes ensinavam sua arte, o que conduziu à fundação de um teatro de boneco que permanece vivo ainda nos nossos dias.
Nestes últimos anos, várias vilas e aldeias ao redor de Iida foram absorvidas pela cidade. Foram construídos teatros utilizando técnicas arquitetônicas japonesas para as companhias Kuroda (Kuroda Puppet Company) e Imada (Imada Puppet Company) com a ajuda de instituições locais de forma que eles podem agora oferecer suas apresentações sem se preocuparem com as condições climáticas.
Mantendo o estilo do período Edo, o novo teatro de Kuroda realiza suas montagens com bonecos agora sob um teto que cobre a cena, mantendo a tradição de o público situado por completo no anfiteatro ao ar livre. Bonecos de Kuroda são caracterizados pelos cabelos que são conectados às cabeças antes de cada apresentação.
Pessoalmente eu considero que os cabelos dos bonecos de Kuroda, entre todas as variedades de cabeças de boneco manipuladas por três bonequeiros, são muito bonitos, incluindo o Bunraku em Awaji. Toda vez que vejo estes bonecos fico muito feliz e cheio de admiração. E espero sinceramente que isto possa acontecer novamente, pois agora os cabelos dos bonecos sempre estarão protegidos.
Quinze anos atrás, eu fui convidado pela cidade de Iida que construíra o Museu Internacional da Marionete Sennosuke Takeda em Zakoji, cercada pelos Alpes do sul e central, em um lugar de rara beleza no Japão.
Quarenta anos atrás, enquanto assistia a uma apresentação de Comédie Française, em Paris, uma criança que eu suponho devia então estar na escola primária, olhou atentamente para mim, observando que eu estava concentrado no espetáculo que assistíamos. Como eu sorria e reagia apenas aos gestos dos atores, a criança gostaria que eu também tirasse proveito, seguindo também os diálogos, e eu fui tocado profundamente por este ato amável dela.
Em vez de esperarmos que eles sejam adultos, quando jovens é que deveríamos apresentar a beleza e a cultura para as nossas crianças. Eu continuo meu trabalho no museu, na esperança de que um dia os teatros de bonecos do mundo inteiro estejam como aquele, ocupados por crianças.





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